” Era frei Simão de caráter taciturno e desconfiado. Passava dias inteiros em sua cela, donde apenas saía na hora do refeitório e dos ofícios divinos. Não contava amizade alguma no convento, porque não era possível entreter com ele os preliminares que fundam e consolidam as afeições.(…)

Um dia anuncia-se que frei Simão adoecera gravemente. Chamaram-se os socorros e prestou-se ao enfermo todos os cuidados necessários. A moléstia era mortal; depois de cinco dias, frei Simão expirou.

Durante estes cinco dias de moléstia, a cela de frei Simão esteve cheia de frades. Frei Simão não disse uma palavra durante esses cinco dias; só no último, quando se aproximava o minuto fatal, sentou-se no leito, fez chamar para mais perto o abade e disse-lhe ao ouvido com voz sufocada e em tom estranho:

– Morro odiando a humanidade!”

Trecho inicial do conto “Frei Simão” de Machado de Assis. Extraído da coleção Contos de Machado de Assis (Editora Record). O volume  seis  reúne contos sob o tema “Desrazão“. Recomendo.

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